Projeto e Construção “High-Tech” casa de praia

Décourt, L. | Luciano Décourt Engenheiros Consultores Ltda

1 Resumo
Esse artigo descreve os procedimentos utilizados para tornar viável a execução de uma residência em nível elevado (cota 116,25m), com o objetivo de se ter uma privilegiada vista para o mar, e um amplo estacionamento de veículos, ao nível da rua. Técnicas modernas tais como contenções em solo-grampeado e aterros auto portantes de solo-cimento foram utilizadas.

Abstract: This paper presents the procedures used to make feasible the construction of a residence with a privileged ocean view and a large parking area, at the street level. Modern techniques like soil nailing stabilization and self supported soil-cement fills have been used.

2 Generalidades
Esse artigo descreve a construção de uma residência de praia, em Tijucopava, Guarujá, SP.

O terreno é em aclive, sendo inteiramente coberto por mata atlântica. Sua área é de 2.400,0m².

A inclinação é de cerca de 40˚. Por se tratar de uma região de preservação ambiental, só foi autorizado o desmatamento de 30% dessa área, ou seja, 720,0m².

3 Concepção da Obra
O terreno original não tinha, praticamente, nenhum metro quadrado em nível.
O projeto previa uma ampla área de estacionamento, pouco acima do nível da rua, cota 102,0m, para permitir a guarda de inúmeros carros.

A casa propriamente dita será construída a cerca de 10,0m acima do nível da rua, cota 111,25m, para que dela possa-se ter uma ampla e privilegiada vistapara o mar.

4 Cortes e Aterros
Pode-se observar nas Figuras 1 e 2 que a mata atlântica iniciava-se junto a rua. Face às
restrições dos órgãos ambientais e o conceito do projeto, procurou-se compensar, tanto quanto possível, a execução de cortes e aterros.

Assim, à medida que ia se abrindo o corte, a terra era levada para cima, procedendo-se então a execução do aterro. Esse aterro foi do tipo auto portante, de solo-cimento compactado. Obra pioneira com essa tecnologia foi feita pelo autor, também no Guarujá, em 1975,

A altura máxima desse aterro era da ordem de 10,0m.

É importante frisar que todo esse serviço foi feito com mão de obra local, sem experiência nesse tipo de obra. A mistura era feita com o solo com baixo teor de umidade utilizando-se betoneira. A compactação era feita em camadas com 10,0cm de espessura, utilizando-se “sapos”. Sacos de solocimento foram usados como formas. Figuras 3 a 7.
Ressalta-se que a maneira como se desenvolveu esse trabalho, não iria permitir, por razões econômicas, a contratação de uma fiscalização adequada. O mesmo foi conduzido sob supervisão do autor, utilizando-se uma dosagem da mistura com teor de cimento cerca de 50% acima do que seria indicado para uma obra construída por equipes especializadas e com rigoroso controle tecnológico.
Nas Figuras 8 e 9 pode-se observar como o solo era levado de baixo para cima. Construiu-se esse carrinho com rodas, que era puxado, rampa acima, por cabos de aço.
A região da garagem, com cerca de 25,0m de comprimento e 9,50m de largura foi escavada e estabilizada com a execução de solo-grampeado. A altura máxima estabilizada era de 10,0m a 12,0m.Foram utilizadas perfurações com 6,0m de comprimento, espaçadas 1,20m / 1,30m entre eixos.

Barras de aço de 20,0mm de diâmetro foram introduzidas nos furos e procedidas as injeções, essas em duas fases, além da execução das bainhas.

Nessa obra, procurou o autor verificar a validade de um conceito, não perfeitamente aceito por parte da especialidade, ou seja, da importância da cortina de concreto projetada na estabilidade da obra.

Pensa o autor que esse concreto projetado tem importância apenas como proteção superficial e como combate a pequenas instabilidades localizadas e isto nos casos de solos extremamente instáveis.

Para verificar a exatidão ou não dessa hipótese, a obra foi conduzida de maneira, de certa forma, atípica.

Inicialmente, procedeu-se a execução de todos os chumbadores e a colocação dos drenos de paramento. Figuras 10, 11 e 12.
Somente após, concluídos esses serviços, passou-se à execução do concreto projetado, formando uma cortina com espessura entre 7,0cm e 8,0cm.
Para caracterizar o solo local, um saprolito de gnaisse, procedeu-se a determinação de sua curva granulométrica. Trata-se, evidentemente de uma areia, com cerca de 25% de finos. Figura 13

Embora trate-se de uma areia, solo considerado como de estabilidade precária perante escavações verticais ou sub verticais, o fato de o material ser não saturado, fez com que estivessem presentes “coesões capilares”, e consequentemente, a obra foi concluída sem nenhum tipo de problema
Uma das dificuldades previsíveis face aos resultados das sondagens era a presença do matacões o que de fato ocorreu, embora não com incidência muito grande.

Quando as pedras eram muito grandes, as mesmas eram quebradas, às vezes a fogo, para poderem, posteriormente, serem removidas da obra. Figura 14.

5 Estrutura Metálica
Foi projetada e construída uma estrutura metálica para sustentar as diversas lajes da construção.

O nível do piso da casa situa-se à cota 111,25m, ou seja, 10,25m acima do nível da rua. A cobertura dessa casa será um amplo jardim, executado sobre laje.

Essa laje e o jardim irão se constituir em um prolongamento natural do aterro auto portante de solo-cimento compactado. Assim, em um terreno onde não havia sequer um metro quadrado em nível, criou-se uma área plana e ajardinada de 720,0m², (o limite máximo permitido) área essa, tendo aos fundos a mata atlântica e à frente, o mar. Figura 15.

6 Resumo e Conclusões
Através de uma concepção de projeto, moderna e ousada, procedeu-se a uma “cirurgia plástica” no terreno natural.

Como resultado desse trabalho, obteve-se uma ampla área para estacionamento de veículos, ao nível da rua, um local aonde será erguida uma casa, em nível elevado, de forma a ter uma ampla vista para o mar, e um jardim tropical, totalmente plano e situado a cota 116,25m, ou seja, 15,25m acima do nível da rua, constituindo-se em uma ampla área de laser, totalmente plana, com excepcional vista para o mar e limitada aos fundos pela floresta virgem da mata atlântica.

7 Agradecimentos
O autor é grato aos engenheiros Artur Rodrigues Quaresma Filho e Orozimbo Arthur de Lima Campos, da Engesolos, aos engenheiros Armando de Oliveira e João Armando de Oliveira, da Reforça e ao engenheiro José Maria de Camargo Barros, do IPT, pela inestimável colaboração.


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